O pedido de 1968 que criou o CLP: a encomenda da indústria automotiva que aposentou os relés
Publicado em 02/10/2026

Trocar o modelo de um carro, no fim dos anos 1960, significava também reconstruir armários inteiros de relés. Cada painel de controle das linhas de transmissão automática era fiado à mão, e qualquer mudança de sequência exigia horas de retrabalho, desenhos novos e testes demorados. Foi desse incômodo que nasceu, em 1968, o pedido que marca a história do CLP.
O pedido da Hydra-Matic
A Divisão Hydra-Matic da General Motors, responsável por transmissões automáticas, buscava uma forma de reduzir o custo e o tempo de cada troca de linha. Em maio de 1968, o engenheiro Bill Stone apresentou, em um fórum de máquinas-ferramenta nos Estados Unidos, o conceito de um "controlador padrão de máquina", acompanhado de uma lista de requisitos de desempenho. A especificação foi distribuída a fabricantes de controles interessados em disputar o fornecimento.
Os requisitos, em linhas gerais, pediam um equipamento que:
- fosse programável e reprogramável sem refazer fiação;
- suportasse o ambiente de fábrica, com calor, poeira, vibração e ruído elétrico;
- pudesse ser mantido pelos eletricistas da própria planta;
- competisse em custo com os painéis de relés que substituiria;
- tivesse entradas e saídas compatíveis com os sinais já usados nas máquinas.
Entre as empresas que responderam estava a Bedford Associates, pequena firma de engenharia de Massachusetts ligada ao engenheiro Dick Morley. O projeto que ela desenvolveu recebeu o nome de 084, por ser o octogésimo quarto trabalho do escritório, e deu origem à marca Modicon, abreviação de controlador digital modular. As primeiras unidades chegaram às fábricas no ano seguinte, em 1969. Outros fornecedores também apresentaram propostas, e o conceito rapidamente deixou de ser exclusivo de uma empresa.
Ladder: a linguagem que imitou os relés
Uma das decisões mais duradouras daquele período foi a forma de programar. Os técnicos que mantinham as linhas conheciam diagramas elétricos de relés, com contatos em série e em paralelo alimentando bobinas entre duas barras verticais. Em vez de exigir que aprendessem uma linguagem de computador, os projetistas adotaram uma representação gráfica que imitava esses diagramas.
Nasceu assim a lógica ladder, ou diagrama de contatos. Um contato normalmente aberto no programa corresponde a uma condição que precisa ser verdadeira; um contato normalmente fechado, a uma condição que precisa ser falsa; a bobina representa a saída ou um relé interno. A leitura acontece da esquerda para a direita, linha por linha, como a corrente percorreria um painel físico.
Essa escolha reduziu a resistência à nova tecnologia dentro das fábricas. O eletricista via na tela algo parecido com o que conhecia no papel e conseguia localizar a falha seguindo o mesmo raciocínio.
O ciclo de varredura, herança direta
Outro traço herdado daquela época é o ciclo de varredura. O controlador lê todas as entradas, executa o programa do início ao fim e atualiza as saídas, repetindo o processo continuamente. O resultado prático é que o comportamento se aproxima do de um painel de relés, mas com a flexibilidade do software.
Com o tempo, o equipamento ganhou funções que os relés não ofereciam: temporizadores e contadores internos, operações matemáticas, controle PID, comunicação em rede. A norma internacional IEC 61131-3 organizou as linguagens de programação e colocou o ladder ao lado de outras, como texto estruturado e blocos de função.
O que o técnico atual herda
Para quem trabalha com automação, conhecer essa origem ajuda a entender escolhas que ainda estão no dia a dia:
- A lógica pensada em contatos e bobinas continua sendo o ponto de partida no diagnóstico de falhas.
- A robustez de hardware, exigência de 1968, segue como diferencial em relação a computadores comuns.
- A manutenção pelo pessoal da planta explica a preocupação com programas legíveis, comentados e organizados.
- A reprogramação sem mexer em fios é o que permite adaptar linhas a novos produtos em pouco tempo.
Quase seis décadas depois, os painéis de relés viraram exceção, mas o raciocínio que eles ensinaram continua vivo em cada linha de ladder.
Perguntas e respostas
Quem é considerado o criador do CLP? O engenheiro Dick Morley, da Bedford Associates, costuma ser apontado como o pai do controlador, pelo projeto do Modicon 084. Outros fabricantes desenvolveram equipamentos semelhantes no mesmo período, em resposta à especificação da General Motors.
Por que a linguagem ladder se tornou tão difundida? Porque reproduz a lógica dos diagramas de relés que eletricistas e técnicos já dominavam. Isso facilitou a adoção nas fábricas e a manutenção por equipes internas.
O CLP de 1968 já tinha as funções dos modelos atuais? Não. Os primeiros equipamentos se concentravam em lógica de liga e desliga, substituindo relés. Funções como controle PID, operações matemáticas e comunicação em rede foram incorporadas ao longo das décadas seguintes.